Comunicação

Como podemos combater a informação enganosa

Claire Wardle
7 de dezembro de 2018

Todos precisam tomar uma atitude.

A informação contaminada online é um “problema perverso”, que não pode ser resolvido por processos convencionais, e em geral os esforços para resolvê-lo só servem para piorar. Veja, por exemplo, a etiqueta de identificação “contestado por verificadores de fatos” que a Facebook adicionou aos artigos que foram considerados falsos. Em vez de mudar a cabeça das pessoas, a etiqueta, na verdade, aumentou a crença nas afirmações falsas para os públicos já predispostos a acreditar nelas.

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É difícil quantificar os custos diretos e indiretos da informação falsa, confusa ou manipulada e tentar explicar como a informação contaminada está afetando as democracias. Surpreendentemente, poucas discussões procuram esclarecer como ela está influenciando as economias. Três eventos mundiais recentes afetados por informação enganosa — a votação do Brexit, a eleição de Donald Trump e a de Emmanuel Macron — certamente tiveram consequências econômicas globais. Afinal, qualquer campanha planejada especificamente para semear desconfiança e confusão — e para aguçar as divisões socioculturais existentes usando tensões nacionalistas, étnicas, raciais e religiosas — repercute nas economias.

Num relatório recente ao Conselho Europeu, meu colega Hossein Derakhshan e eu apresentamos 35 recomendações sobre como conseguir pequenas vitórias nesta importante batalha. Ajustando algoritmos, instruindo os leitores e regulamentando as plataformas: tudo isso faz parte do que sugerimos. Mas para conseguirem isso e se manterem à frente dos ataques da informação contaminada, jornalistas, formuladores de políticas, líderes empresariais, igualitariamente, terão de fazer mais que considerar nossas sugestões — todos nós precisaremos caminhar rápido e trabalhar juntos.

Pelo que estamos lutando

É bom começar com algumas definições, principalmente porque o termo fake news foi estendido além de seus limites. Do que estamos realmente falando — informação enganosa e desinformação — nem sempre parece notícia, e nem sempre ela é fabricada. A informação falsa compartilhada acidentalmente e sem a intenção de prejudicar é mais bem descrita como informação enganosa. Por outro lado, informação falsa compartilhada conscientemente e com a intenção de prejudicar é chamada de desinformação. O conteúdo pode assumir várias formas — desde texto mentiroso e caracterizações em artigos até gráficos e vídeos que utilizam imagem de marcas para criar legitimidade de forma desonesta. De forma mais ampla, a desinformação pode incluir campanhas para depreciar ou valorizar determinados produtos online por meio de avaliações falsas, assinaturas pagas em abaixo-assinados, esforços para manipular resultados de buscas online e técnicas sofisticadas para criar falsas impressões sobre a opinião pública.

Parte do que torna a informação enganosa um problema perverso é que muitas das ferramentas e métodos utilizados para criá-la e distribuí-la são também amplamente utilizados com finalidade não criminosa. As técnicas sofisticadas para coletar dados pessoais usadas pelos russos e pela Cambridge Analytica no caso das eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos são praticamente idênticas às usadas por empresas que tentam conquistar novos clientes, ONGs que procuram novos financiamentos e novas agências de notícias tentando atrair novos públicos. Para os negócios, a publicidade por meio de agências online como a AdSense da Google oferece penetração incrível, mas essa penetração pode incluir sites questionáveis. A startup de tecnologia de publicidade Sotryzy encontrou mais de 600 anúncios de marcas em sites que promoviam teorias da conspiração e outras informações enganosas. Aplicativos fechados de troca de mensagens como o WhatsApp e o WeChat ajudam as famílias e amigos a, convenientemente, manter-se em contato, mas eles também espalham rapidamente boatos e mentiras perigosos que são difíceis de desmascarar.

Todas essas atividades tornam as empresas vulneráveis. Mesmo que uma empresa americana não tenha nada em comum com uma fábrica de engodos russa, os esforços para manter a Facebook e outras plataformas livres de campanhas de desinformação limitam a forma como negócios legítimos realizam seu convencimento nas plataformas sociais. A Google proibiu aproximadamente 200 editores de conteúdo problemáticos de assinar o AdSense, limitando assim o alcance da publicidade das empresas. E nos aplicativos fechados de mensagens é mais difícil saber quando ou se sua marca está sendo atacada ou usada indevidamente, como a BBC descobriu, às vésperas da eleição presidencial do Quênia, em 2017: alguém criou um trote sofisticado usando o logo e gráficos da BBC e o fez circular pelo WhatsApp. No final, A BBC teve de divulgar um vídeo negando o vídeo e afirmando que não era responsável pelo conteúdo falso.

Como trabalhar em conjunto

As marcas já exerceram papel relevante em pressionar plataformas para retirar a informação enganosa, principalmente quando ela representava risco para sua reputação. Várias empresas, incluindo L’Oréal, Nike e Walmart, retiraram seus anúncios online depois de descobrir que eles estavam aparecendo junto com informação enganosa. Essas reações forçaram a YouTube a tomar medidas para garantir que anúncios com exposição automática não aparecessem junto com conteúdo questionável. E a Facebook bloqueou anúncios de páginas que repetidamente compartilhavam notícias falsas. Essas medidas podem ajudar a conter o negócio da informação enganosa limitando o faturamento dos editores de informação falsa com publicidade.

Empresas de tecnologia também precisam fazer intercâmbios difíceis. Elas são organizações comerciais que, para manter os acionistas satisfeitos, procuram encorajar os usuários a permanecer em suas plataformas pelo maior tempo possível, maximizando assim o número de anúncios expostos. Especificamente, as empresas ajustam seus algoritmos para entregar mais do que as pessoas curtiram, compartilharam ou comentaram anteriormente. Quando o que os usuários compartilham é inofensivo, o processo funciona bem — mas quando se trata de informação enganosa, o compartilhamento permite que notícias falsas se propaguem como incêndio florestal. Embora seja difícil imaginar que empresas de tecnologia possam fazer mudanças significativas em seus algoritmos, elas podem conceder aos usuários mais poder para ajustar e personalizar seus próprios algoritmos, permitindo assim deliberadamente o surgimento de pontos de vista inesperados ou discordantes que desafiam a confiança dos usuários. Essas pequenas mudanças reduziriam o impacto de bolhas de filtro, que permitem que a informação enganosa continue sem verificação quando os usuários só veem conteúdos que se alinham com suas atividades passadas.

Finalmente, procurar e reprimir proativamente a informação enganosa rápida e efetivamente seria uma higiene diária de todas as empresas. Uma emprea pode, por exemplo, usar ferramentas de monitoramento social para rastrear na web seu logo e nomes de pessoas importantes de seu staff para ser alertada quando sua marca e seu pessoal se tornam alvos de — e ferramentas em — campanhas de impostores. Se você gerencia uma empresa global, deve enfrentar o desafio de ameaças de monitoramento num variado conjunto de plataformas. Na região da Ásia no Pacífico, por exemplo, quase todos os países têm um aplicativo fechado de troca de mensagens favorito diferente. Na China, é o WeChat; em Mianmar, Viber; no Japão, Line; na Coreia do Sul, KakaoTalk. Sua melhor proteção é explicar à sua força de trabalho do que trata a informação enganosa. Seu pessoal, que provavelmente tem condições de entender onde a desinformação se propaga e que temas são mais explosivos, pode ser sua primeira linha de defesa. Se você for atacado, pense como contra-atacar. Às vezes, você precisa tomar medidas, como a BBC agiu na questão sobre a eleição no Quênia.

Não se renda. Não desista.

Estamos testemunhando uma explosão de informação contaminada em escala global, e a necessidade de soluções viáveis é urgente. Mas não sou ingênuo a ponto de acreditar que nunca nos livraremos da informação enganosa. Acadêmicos, jornalistas, sociedade civil e legisladores tendem a falar sobre informação enganosa como se tivéssemos um relacionamento racional com ela.

A verdade é que a informação enganosa — embora auxiliada por parâmetros de plataformas e novas táticas de amplificação — reflete quem somos e nossos sentimentos de superioridade, raiva e medo. A mais viral informação contaminada mexe com essas emoções e ajuda os usuários a validar suas crenças.

No entanto, precisamos tentar. As empresas de tecnologia deveriam trabalhar em estreito contato com os pesquisadores. Os formuladores de políticas precisam ouvir os verificadores de fatos, e todos nós teremos de estar espertos com as notícias falsas. Nunca resolveremos o problema, mas poderemos agir para limitar seus danos.


Claire Wardle é líder do Information Disorder (ID) Project do Centro Shorenstein de Mídia, Política e Políticas Públicas da Harvard Kennedy School. O projeto é um esforço para combater a disseminação de desinformação na mídia por meio de pesquisa, treinamento e apoio às redações. Wardle faz parte do Conselho do Futuro Global sobre o Futuro da Informação e Entretenimento do Fórum Econômico Mundial.

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