Tecnologia

A questão da empregabilidade diante da inteligência artificial

Cássio Pantaleoni
21 de setembro de 2018

Se pensarmos na acelerada transformação imposta ao sistema socioeconômico em razão da crescente adoção da inteligência artificial (IA), mesmo assumindo a dramática otimização de processos lentos, frágeis e fragmentados, são pertinentes as preocupações que gravitam em torno da empregabilidade. Estudo da McKinsey divulgado em 2017 adverte que a IA ameaça 50% dos empregos no Estados Unidos e Europa; e nos mercados emergentes poderão colocar em risco 70% das posições de trabalho. Cumpre, entretanto, avaliar com mais critério quais serão os reais impactos dessa tecnologia. Se de um lado temos os profetas do desemprego pela substituição da atual mão de obra por agentes de software com inteligência artificial, de outro descobre-se o grupo otimista daqueles que creem nos benefícios da agregação de valor em tarefas onde o fator humano é essencial.

É preciso inicialmente admitir que grande parte das tarefas monótonas, que dependem de pessoas, seriam automatizadas facilmente. Considere-se, por exemplo, a operação de centrais de atendimento, classificação de documentos, moderação de conteúdo, operação e suporte de processos produtivos, agentes de logística, abertura de contas bancárias, subscrição de seguros, análises de evasão fiscal etc. Tais processos, ou tarefas, compartilham de um padrão previsível de atividades repetitivas possível de ser replicado por algoritmos de aprendizado de máquina. Mesmo certas atividades de grande complexidade, como aquelas que demandam o processamento de grandes conjuntos de dados em tempo real (por exemplo, veículos autônomos) bem aproveitariam os recursos da IA, seja observando, decidindo ou agindo em tempo real por meio de funções de otimização bem definidas.

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A intenção primeira do uso de IA é libertar pessoas de tarefas mundanas e que não desafiam a criatividade, proporcionando maior espaço para o desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento dos negócios. O desafio, contudo, recai neste grande grupo de trabalhadores de baixa renda que estão ocupados com estas tarefas repetitivas. Como redistribuir este grupo para possíveis novas ocupações profissionais que serão necessárias ao mundo diante da expressiva adoção de IA? O próprio fundamento da empregabilidade, que neste caso se ajusta a acordos de vínculos de longo prazo e de jornadas de trabalho fixas, necessitaria de um novo paradigma. Seria um mundo de flexibilidade de vínculos, de ofertas de serviço diferenciadas, que vingaria apenas em uma cultura de empreendedorismo, criatividade e inovação. Tais requisitos não necessariamente são encontrados nos atuais trabalhadores de baixa renda que executam tarefas repetitivas. Como certa feita escreveu a poetisa goiana Cora Coralina: “Na prática, a teoria é outra”.

Em verdade, até recentemente, a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento do capital humano apontava o papel crítico para o sucesso econômico mundial, desde a perspectiva das habilidades necessárias que supririam as novas demandas do mercado. Entretanto, a IA coloca uma inflexão nesse debate, pois ainda não está claro quais serão efetivamente as habilidades que poderão ser amplamente requeridas no futuro. Amplamente aqui significa a dimensão desse grande grupo de trabalhadores de baixa renda, que inevitavelmente será preterido em função da IA. Uma estratégia holística para o desenvolvimento do capital humano requer a compreensão clara dos talentos, habilidades e capacidades das pessoas para a nova circunstância instaurada diante desta nova tecnologia.

Porém, há grupos otimistas que anteveem um cenário positivo. Com suas oportunidades e riscos, a automação inteligente exigirá sociedades mais adaptativas e flexíveis, com indivíduos dispostos ao aprendizado contínuo, à colaboração e à inovação. A necessidade de repensar os mecanismos sociais também deverá estar em pauta. De certo modo, o futuro dos empregos pode ser mais promissor do que se supõe. De acordo com uma pesquisa da consultoria Gartner, a IA está criando mais empregos do que acabando com eles, com previsão de alcançar até 2 milhões de novas posições de trabalho até 2025. E aí estão incluídos não somente empregos para engenheiros de software, mas também para trabalhos sem especialização, como por exemplo o treinamento dos agentes de IA para reconhecer objetos ou atividades humanas.

Evidentemente, a perspectiva otimista e a perspectiva alarmista duelam em território pantanoso, pois assumem a premissa do apelo inquestionável da IA. Se algo não pode ser evitado, o que terá que ser será, e teremos de conviver com isso.

Entretanto, a inevitabilidade da evolução tecnológica para a economia não deveria ser considerada isoladamente. Diante do inelutável é preciso planejamento. Para aqueles que integram a força de trabalho potencial do mundo – indivíduos que necessitam de renda proveniente de seus empregos para colaborar com o equilíbrio da economia (evitando assim os custos de embates sociais) –, faz-se necessário um planejamento de longo prazo para a estratégia do desenvolvimento do capital humano. Os riscos aqui recaem sobre a importância secundária do tema para os círculos políticos ou mesmo para empreendedores ou investidores. Empresas e governos tratam do tema de maneira reativa e com isso devolvem à sociedade a responsabilidade para que ela encontre seu próprio caminho. É exatamente este descaso que contribui, nos dias atuais, para a dificuldade de encontrar os talentos que as organizações necessitam diante da transformação digital.

A questão da empregabilidade diante de mudanças do mercado advindas de novos paradigmas tecnológicos não é exatamente um tema novo. Toda a vez que o paradigma estabelecido enfrenta a dissonância produzida pelas vozes de qualquer inovação o tema revitaliza-se. Foi assim com a revolução agrícola do século 18, as três revoluções industriais de 1760, a de 1850 e a da segunda metade do século 20, e por fim a revolução digital. A diferença é que agora estamos diante de algo muito mais impactante, porque a IA simula a cognição humana, algo que nunca tínhamos alcançado. É exatamente por isso que o futuro da empregabilidade não está claro, pois nunca o desenvolvimento do capital humano esteve tão dependente de uma estratégia lúcida e de longo prazo. Tal estratégia deverá estar fundamentada pela ideia de aprendizagem contínua e exigirá políticas sociais e econômicas que a suportem. Deverá ser pautada pelo reconhecimento de que, em uma economia global que se transforma em grande velocidade, o conhecimento valioso de um trabalhador jovem poderá ser inútil nas décadas seguintes.


Cássio Pantaleoni é presidente da SAS Brasil.

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