Apresentações

Como vencer o medo de falar em público

Art Markman
24 de agosto de 2018
como superar seu medo de falar em público

Falar em público é tão estressante para tanta gente que costuma ser usado como uma manipulação de estresse em estudos psicológicos. Digamos a um grupo de universitários que eles têm dez minutos para preparar um discurso avaliado por especialistas. Seu nível de cortisol, o hormônio do estresse, irá às alturas.

No entanto, falar em público é requisito para o sucesso em diversas funções. Além das apresentações durante as aulas, também dou palestras para grupos, normalmente uma vez por semana. Perguntam-me se fico nervoso ao falar em público. Respondo que não. E devo muito a meu fascínio pela comédia stand-up. Mesmo não sendo comediante, há um bom tempo sou fã de comediantes e de seu trabalho. Creio que há três lições que eles podem nos ensinar sobre falar em público.

Tudo bem morrer
Por que será que falar em público é tão apavorante? A razão principal: é um risco social. Ao proferir um discurso ruim (ou tropeçar rumo ao palco), sua preocupação é a de que você carregará esse vexame a vida inteira. Sua reputação será impactada e sofrerá as consequências por muito tempo.

A morte é uma metáfora recorrente para os comediantes. Quando fazem um grande número, eles mataram. Mas quando o número foi horrível, morreram no palco. Todo comediante que conheci ou sobre quem li alguma vez já morreu. Várias vezes. E sobreviveram para contar a história. E muitos tiveram carreiras de sucesso.

Você está muito mais preocupado com as consequências de um discurso ruim do que qualquer outra pessoa. Muitos estudos indicam que damos um viés egocêntrico a nossas atividades. Os outros simplesmente se preocupam muito menos com você (e percebem muito menos aspectos sobre você) do que você acredita. Sua plateia se esquecerá da maior parte do discurso assim que for concluído (tenha sido bom ou ruim).

Ao se dar conta de que o lado negativo de falar em público afinal não é tão ruim assim, torna-se mais fácil proferir discursos. Além disso, o estresse diminui a memória de trabalho — a quantidade de memória disponível para o pensamento crítico em dado momento. Com menos estresse sobre o ato de falar em público, você também tem mais clareza de pensamento, o que por sua vez promove a espontaneidade e respostas mais eficientes.

Pratique no caminho
Depois de começar a falar em público, é provável que fale do mesmo assunto várias vezes, de forma que praticará pouco a pouco, tal qual um comediante. Os comediantes trazem um tema e o praticam, para então experimentá-lo perante uma plateia. Nas atuações seguintes, enfatizam e floreiam os trechos que funcionaram melhor e descartam os que não deram certo. Conforme vão cumprindo uma rotina, ganham uma noção bastante razoável de como serão as reações do público.

Você pode fazer exatamente o mesmo. Aproveite as oportunidades de proferir um discurso sobre o mesmo assunto várias vezes. Observe atentamente a plateia. Dá para perceber se estão prestando atenção ou se estão alheios. E tente pedir opiniões dos presentes para descobrir o que foi captado.

Tome algumas notas em seguida — não confie na memória. Destaque os elementos que mais pareceram agradar. Reorganize os trechos do discurso que puseram os presentes a mexer no celular ou a ansiar pelo intervalo. Seus discursos melhoram com o tempo, não apenas por você ter mais prática com eles, mas também por tê-los aprimorado com base no retorno obtido da plateia.

Lembre-se da regra de três
Em meu livro Smart thinking, abordo uma constatação de que as pessoas lembram-se de cerca de três elementos a respeito de uma experiência vivida. Esse conceito tem um paralelo direto com a comédia. Jeff Loewenstein e Chip Heath escreveram sobre o que chamaram de “repetition-break plot structure”, uma estrutura de enredo comum em piadas e narrativas, em que um padrão esperado é interrompido. Em essência, uma história é contada, recontada, para então na terceira vez ter uma reviravolta marcante. É essa a estrutura de inúmeras piadas que começam com: “Três caras entram em um bar….”.

Essa estrutura funciona bem por dois motivos. Primeiramente, é fácil lembrar-se dos três elementos. Depois, a comparação entre o primeiro elemento e o segundo abrem caminho a um esquema propício a uma série de expectativas. Ao se romper a expectativa em um terceiro momento, cria-se algo marcante, surpreendente e (por vezes) engraçado.

Ao preparar seus discursos, tenha em mente quais são os três elementos dos quais a plateia deve se lembrar, e foque nelas. Encontre formas de comparar os elementos apresentados para instigar expectativas da plateia. Resista à tentação de acrescentar conteúdo adicional. Menos é mais.

E uma lição vai de brinde. Os comediantes costumam usar referências para gerar humor. Nessa situação, eles se referem a uma piada já contada na mesma apresentação. Se por um lado tais referências são engraçadas, por outro também reforçam a memória.

O cérebro tende a se esquecer da maior parte do que encontra. (Afinal, você interage com várias situações ao decorrer de um dia, e não é necessário lembrar-se de todas.) Uma maneira de o cérebro decidir do que se lembrar é ao determinar que certa informação será importante mais tarde. Um bom indicador da importância futura de uma informação é o fato de você já ter precisado se lembrar dela ao menos uma vez após se deparar com ela. Ao fazer referência a uma questão já mencionada no decorrer do discurso, você está fornecendo ganchos à plateia sobre quais informações devem ser retidas para outras ocasiões.

Tratar o discurso como comédia stand-up não basta para livrá-lo automaticamente do estresse. Mas é provável que seu pânico diminua à medida que perceba que concluiu mais um discurso e que não foi o fim do mundo. E quem sabe um dia, assim espero, você possa até ficar mais animado que preocupado com a ideia de posicionar-se perante um grupo.
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Art Markman, PhD, é professor de Psicologia e Marketing do Centennial Annabel Irion Worsham na University of Texas at Austin e diretor fundador do programa Human Dimensions of Organizations. Escreveu mais de 150 artigos acadêmicos sobre assuntos tais como raciocínio, tomada de decisões e motivação. É autor de vários livros como Smart thinking, Smart change e Habits of leadership.
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Tradução: Clayton Rodrigo Cardoso

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