Inovação

O poder transformador do Open Banking

Leo Monte
8 de novembro de 2018
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Estou lendo uma matéria quando essa informação me chama atenção: a implementação de serviços digitais já é uma prioridade, em 2018, para 85% das 221 instituições financeiras entrevistadas em uma pesquisa global elaborada pela consultoria EY. Esse mesmo estudo mostrou ainda que 70% das empresas planejam investir em tecnologia para fortalecer seu posicionamento competitivo e ganhar mercado.

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É inegável a transformação que o uso da tecnologia trouxe para todos os segmentos. Com o setor financeiro não podia ser diferente, basta pensar em como era um banco há 15 anos. E os avanços dos serviços de Mobile Bank? Com esse novo consumidor surgiu a necessidade de criar serviços e alternativas de uso mais veloz e focados na experiência do usuário. É aí que entra o Open Banking – uma vantajosa estratégia de inovação para as empresas.

O que é Open Banking?

É uma plataforma que permite a integração de aplicativos com serviços por meio da abertura de Application Programmimg Interface, ou interface de programação de aplicações, em português). As APIs são elementos-chave da transformação digital dos bancos, uma vez que permitem a desenvolvedores de outras empresas de tecnologia criar diversas aplicações e serviços, focados nas experiências e na forma como os clientes interagem com o banco. Elas permitem, portanto, que empresas e desenvolvedores conectem seus sistemas, compartilhem dados e realizem transações de forma automatizada e segura.

Ao liberar dados em uma camada de integração, o banco também pode se integrar a novas cadeias de serviços, viabilizando o trânsito de informações por meio de outras plataformas de serviço. Ou seja, o correntista pode acessar suas informações bancárias por aplicativos de outras empresas e não somente pelo banco.

No Brasil o Open Banking já é uma realidade. O Banco Original foi o pioneiro em 2016 e na sequência o Banco do Brasil, em junho de 2017. O BB fez parcerias para criação de serviços integrados ao sistema da instituição – um projeto com a startup de comparação de empréstimos consignados Bxblue, ContaAzul (plataforma de gestão em nuvem para pequenas empresas), Dotz (programa de fidelidade), BrasilCap (empresa de capitalização), Ciclic (fintech de planos de previdência privada controlada pelo Banco do Brasil) e FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).

O Banco Central comunicou que vai definir o modelo de Open Banking em 2019. A questão é saber se o BC vai seguir um modelo mais restritivo –  que irá categorizar as plataformas que poderão requisitar os dados, a linguagem de programação da API e outros detalhes, algo parecido com o que ocorre na Inglaterra -, ou seguir um modelo semelhante ao da União Europeia, pelo qual os bancos são obrigados a disponibilizar a API, mas sem uma padronização tão restritiva.

Essa regulamentação também é relevante, já que na Europa, por exemplo, existe a PSD2 (Payment Services Revised Directive). Isso significa que todas as organizações reguladas pelo Banco Central Europeu deverão disponibilizar APIs abertas, ou seja, adotar a plataforma do Open Banking. Mais um ponto interessante do PSD2 é que o usuário é dono dos seus dados e contas, ou seja, ele pode fazer a portabilidade de um banco para outro em um “click”. Desta forma o poder de escolha está na mão do usuário, o que força os bancos a oferecer melhores serviços com experiências incríveis.

Os bancos dos Estados Unidos observam com temor o que aconteceu na China, onde a Tencent Holdings e a Alibaba Group Holding estão chegando a 500 milhões de usuários bancários e de seguros. A unidade de Yu’e Bao, da Alibaba, tornou-se o maior fundo do mercado monetário do mundo, com US$ 210 bilhões em ativos em apenas cinco anos desde seu lançamento, em junho de 2013.

Empresas de varejo e viagens, grandes bancos como JP Morgan Chase, Citigroup e Bank of America também estão investindo em digital para se proteger da Amazon, Google ou outra plataforma que chegará (se não chegou) para ganhar os clientes para sempre.


Outras vantagens do Open Banking

 

1) Engajamento: qual empresa não quer ser lembrada por facilitar a vida do usuário? APIs em bancos são o caminho para novas ideias. Assim, a marca do banco além de estar presente em vários momentos do dia a dia do usuário, pode até conquistar mais clientes por conta das facilidades e gama de serviços que pode entregar a esse usuário.

 

2) Monetização de serviços: quando pensamos em bancos, lembramos em dinheiro. Uma característica das APIs em negócios é abrir novas oportunidades de receita. Um exemplo é o modelo de cobrança que pode ser extremamente diversificado. Algumas empresas fazem programas de afiliados, enquanto outras cobram os parceiros pela quantidade de acessos. Uma opção é definir um limite de chamadas por aplicativo, por dia, e quando esse limite for ultrapassado, uma taxa deve ser paga. A ideia é sempre gerar mais valor para o cliente.

 

3) Posicionamento inovador: no mercado, não importa o segmento, ser referência de tecnologia e inovação é uma posição privilegiada. O lançamento de serviços diferentes de seus concorrentes vai melhorar seu posicionamento e percepção, pois a integração com o maior número de aplicativos (ou melhor, com os aplicativos certos para seu público) garantirá um caminho longo e próspero de inovação.

 

4) Efeito de comunidade: imagine milhares de desenvolvedores pensando em sistemas inovadoras usando as APIs da sua empresa! Isso é totalmente possível quando você disponibiliza um portal para a comunidade com as APIs públicas e promove eventos como o Hackathons, com desafios e premiações.

 

5) Aceleração da inovação: as fintechs vieram para mudar a forma como a massa de clientes usa serviços financeiros. É inevitável o lançamento de APIs por parte destes players do mercado, pois já existem diversas empresas que conseguem oferecer pequenos pedaços de serviços que os bancos oferecem de forma aprimorada e especializada. Em vez de recriar, podemos pensar em utilizar estes serviços dentro da plataforma.

 

A nova economia exige mudanças rápidas

A nova economia está criando a necessidade de transformação digital em todos os setores, sobretudo naqueles que demandam cuidado extra com gestão e administração. Então o segredo é não limitar a Open API aos serviços financeiros. Afinal, tudo pode ser “Open”, como Open Retail, Open Insurance ou Open Health.

Um fator interessante disso tudo é que a vantagem dessa combinação depende da criatividade dos bancos (profissionais) e das empresas parceiras envolvidas no uso e integração com APIs. Com um plano bem executado é possível ver o fenômeno que conhecemos como Inovação Aberta ou a Criação de um Ecossistema de Inovação trazendo mais velocidade, eficiência e um fenômeno muito conhecido por nós – o network effect, ou efeito de rede.

Então, se sua empresa ainda não começou esta jornada de mudança, está na hora de colocar na mesma mesa o CIO ou diretor de Tecnologia e, no mínimo, um ou mais service designer para uma discussão estratégica. O avanço é implacável, independentemente do nível de maturidade digital de sua empresa. É hora de agir.


Leo Monte é co-fundador da GR1D, autor da metodologia de inovação ShakeUP, especialista em modelos de negócio de plataforma, transformação digital e inovação.

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